“A pandemia terminou de implodir um modelo educacional que ainda resistia na nossa cabeça”

A afirmação do professor e historiador, Leandro Karnal, foi feita durante o evento promovido pelo Educacional e a Positivo Tecnologia sobre transformação digital na sala de aula

Fila, alunos sentados um atrás do outro, sinal, chamada, uniforme, cópia. O modelo reproduzido pelos sistemas educacionais mundo afora ainda está intrinsicamente ligado aos valores que foram determinados para a ordem, relacionados a uma formação do século de XIX que tinha como objetivo formar operários, soldados e cidadãos obedientes e que, de acordo com o professor, historiador, Leandro Karnal, que não cabe mais na realidade que vivemos.  

“O mundo exige hoje criatividade. Tarefas mecânicas, repetitivas estão a cargos de robôs, de algoritmos, da inteligência artificial. É preciso cada vez mais de gente protagonista e nós, os professores, somos as pessoas ideais para produzir a resposta a este desafio”, disse o estudioso durante a transmissão do evento promovido pelo Educacional sobre a transformação digital na sala de aula.

Karnal contou que assim como em todas as áreas, os profissionais da educação também foram pegos de surpresa pela pandemia de covid-19. “A última vez que as escolas fecharam dois meses seguidos foi em 1918 em função da gripe espanhola. A experiência de ter escolas fechadas e ensino a distância, ou acompanhado pela internet, de uma hora para outra não deu tempo de nos preparamos, mas mais do que nunca a pandemia acelerou um processo que é inevitável: o sistema híbrido de ensino”, contou.  

O historiador acrescentou dizendo que não é mais possível pensar que a partir do ano que vem, por exemplo, todas as escolas estarão 100% do tempo com os alunos de forma presencial como era no passado. “Nós aprendemos que sim, a sociabilidade é na escola, que a exposição da diversidade na escola é algo positivo, mas nós aprendemos também que a tecnologia é uma ferramenta que ninguém mais pode ignorar, não se trata de algo que alguém possa dizer não quero, não posso, não faço”, alertou.

Vivemos em uma sociedade que enfrenta uma pandemia conectada de uma forma decisiva para muitas pessoas.

Diante deste cenário, Karnal acredita que é preciso que a escola deixe de lado a ênfase na memória, na cópia e ressignifique a ideia de pesquisa para não ter que ler o “recorta e cola” da internet. “Precisamos repensar projetos, criatividade, ética, filosofia da educação, dialogar com a possibilidade tecnológica porque ela não apenas que aumentou a difusão, mas revolucionou o formato que conhecemos na aquisição do conhecimento”, disse.  

Resgatando a história, Karnal lembrou que durante toda a Idade Média o conhecimento estava limitado a alguns mosteiros que copiavam obras e, por isso, não se tinha uma divulgação do conhecimento, que ficou restrito aos monges e letrados. “Com a invenção da imprensa do século XV nós tivemos um salto na produção de livros, uma atomização, uma capilarização das informações que se transformou na regra até o século XX. O século XXI traz um outro salto ainda mais radical com a tecnologia que é essencial para viver na sociedade 5.0”, destacou.

Ainda que a pandemia tenha forçado profundas transformações digitais na sala de aula, o historiador advertiu sobre a importância de se evoluir no pensamento, na forma de se fazer educação. “Eu não posso ignorar a tecnologia, mas também não posso confundir filosofia educacional com tablets. Afinal, podemos fazer um péssimo ensino com internet de última geração e tablets moderníssimos. Portanto, está mais do que na hora de tirarmos da nossa memória os valores que foram adequados a uma determinada geração, na produção de um conhecimento repetitivo, e fazer uma escola interessante, que prepare os alunos para o novo mundo por mais desafiador que isso seja, é preciso deixar os monges copistas medievais no passado porque o futuro não pertence a eles”, ponderou.

A ATIVIDADE FIM DA ESCOLA É O CONHECIMENTO

Karnal pediu ainda que cada participante fizesse uma análise da sua realidade educacional e comentou que durante a pandemia viu muitos pais mais preocupados por não terem onde deixarem seus filhos do que pela educação propriamente dita.  

“Eu não vi nenhum pai se organizando em função de deficiências de conteúdo. Nenhum deles falando meu filho não dominou o conceito de mitocôndria, adjunto adnominal, trigonometria. Eu vi pais desesperados porque a escola não estava exercendo mais sua função de creche, ou seja, sua função secundária, que é importante, mas que não é o objetivo final da instituição escolar. Entretanto, é nisso que a escola parece ter se firmado e esse é um aprendizado interessante porque é como se eu fechasse um hospital e as pessoas me dissessem ‘que pena não vai ter mais pão de queijo da lanchonete’. A atividade fim da escola é o conhecimento”, destacou.

Se ao fecharmos escolas, se entrarmos num sistema virtual ou EAD, as pessoas sentiram mais falta da função creche do que da função educacional propriamente dita nós temos algo a refletir.

A PANDEMIA ACELEROU A EDUCAÇÃO E REFORÇOU A IMPORTÂNCIA DA ESCOLA

“A pandemia talvez tenha acelerado a obsolescência, o caráter ultrapassado de um ensino que ainda quer ilustrar alunos com todo conhecimento humano desde o surgimento da nossa espécie. Nós ainda estamos trabalhando com esse tipo de perspectiva, achando que devemos colocar tudo a disposição quando na verdade deveríamos trabalhar com métodos, ferramentas, com processos mentais e não com acúmulo de informações”, refletiu Karnal durante a transmissão.  

A prova disso, para ele, é que, apesar de todas as mudanças, o vestibular ainda é pesadamente uma enumeração de conteúdos intermináveis. “Queremos mostrar que uma criança praticamente, um adolescente, domina toda a geografia, toda matemática, todas as grandes questões da história, absolutamente todas e graças a isso o vestibular se transformou muito mais numa prova de resistência do que numa prova de conhecimento, de competência e de atitudes".

Nunca antes nós tivemos uma chance tão grande de repensar a educação.

Durante a pandemia vimos crescer a busca por vídeos de do it yourself - ou em bom português ‘faça você mesmo’ -, que devem ser cada vez mais introduzidos a nossa rotina pessoal. Karnal acredita que autodidatismo crescerá e que os tutoriais são muito importantes. “Confio na internet como fonte de novas habilidades. Se diz com frequência que a internet vai substituir as universidades, que as pessoas autodidatas que procuram seus próprios tutoriais serão mais efetivas, mais rápidas que aquelas que tiveram que passar semanas na escola estudando uma coisa na escola com outras 40 pessoas”, mas para além da tendência, o educador faz questão de chamar atenção para a importância da instituição escola.  

"A escola é o lugar profissional para pensar educação. Enquanto na internet meu aluno está submetido a uma selva de informações, nem todas inclusive bem intencionadas, na escola é que se tem uma preocupação humanística em relação a esse aprendizado, mas é preciso também que, nós educadores, compreendamos que se tentarmos voltar dentro de sistemas tradicionais de ensino nós teremos uma crescente inutilização da escola”, atentou.

Para ele cada pessoa que trabalha com educação está diante de uma encruzilhada nova e inédita,  em que alguns estão disfarçando dizendo: “nós somos modernos, nossa escola tem conexão 5G”, mas Karnal reforçou que não basta apenas investir nas modernidades das instalações porque isso é uma questão unicamente financeira, o grande desafio do momento é a filosofia da educação, a reflexão sobre os objetivos educacionais, sobre que produto que se quer oferecer daqui algum tempo dentro do projeto educacional.

A IMPORTÂNCIA DE SE PREPARAR O ALUNO PARA O MUNDO EM QUE ELE VIVERÁ E NÃO PARA O MUNDO QUE O PROFESSOR VIVEU

Karnal lembrou que na década de 80 e 90 experiências pioneiras com computação foram feitas no Ensino Médio e Fundamental, onde a escola considerava que ter uma sala de informática era o que caracterizava a escola como moderna. “Eu olhava para aquilo, os alunos digitando, e pensava comigo: isso parece uma escola profissional de datilografia. Ou seja, eu estou ensinando uma habilidade mecânica, na época uma certa novidade, mas a minha função na escola não é exatamente imitar ou limitar a um ensino técnico para inserir esse jovem em um emprego que certamente será menos desafiador e menos bem pago”.

O resgate dessa memória foi para dizer aos educadores a importância que eles têm de se comprometer com o aluno e não com a memória da educação que tiveram no passado.

O que que meu aluno vai precisar em 2050 quando eu não estiver mais aqui provavelmente? O que eles vão enfrentar em uma sociedade 5.0 no qual a tecnologia é interpretada como algo que deve necessariamente atender a demandas de qualidade de vida, de ecologia e assim por diante?

O que o meu aluno precisa para ser um cidadão do futuro e não um cidadão do passado?

Segundo Karnal é preciso pensar na ruptura desse sistema para que o aluno não seja um repetidor porque os repetidores serão considerados de menor valor no futuro já que estarão concorrendo com robôs melhores. “Esses repetidores só tem sentido onde a mão de obra é muito barata, mas já desaparecem no primeiro mundo. Os carros já não têm mais motoristas, os prédios são inteligentes, as entregas são feitas cada vez mais por drones”, acrescentou.

O olhar para o historiador deve estar muito mais em fazer os alunos pensarem porque “precisamos de bons filósofos para debater inteligência artificial, bons pensadores para garantir o traço humanista dessa sociedade 5.0, de pessoas que estejam na fronteira pensando a resolução de problemas e não produzindo a repetição infinita e enfadonha de coisas”.

E é justamente aqui que entra uma característica importante chamada de É importante é dar ferramentas para continuar aquela característica que nós chamamos de learning ability, que é a capacidade de continuar estudando, perguntando e aprendendo. “Devemos promover um ensino baseado em curiosidade, em pesquisa, em projetos”.

O PAPEL DO EDUCADOR

“Quais são as habilidades, procedimentos, elementos cognitivos, comportamentais que eu vou explorar? Como essa tecnologia vai produzir esses elementos?”, questionou.

Para Karnal a função do professor é entender a transformação digital como uma aliada e ser a pessoa que separa o ‘joio do trigo’. “Só o professor sabe transformar a informação em formação, a abundância de dados em algo operacionalizado, de ajudar o aluno a fazer a aplicação e análise. Só a escola pode escalonar essa diferença entre sistemas para que o cérebro seja exposto gradativamente a desafios cada vez maiores e só a escola e os professores tem essa preocupação".

São os educadores, de acordo com o historiador, que tem a possibilidade de pensar o que é melhor nesse momento, de avaliar materiais, de definir os novos padrões da avaliação. “O que eu farei daqui por diante em função desses desafios, daquilo que eu quero, que eu pretendo, daquilo que eu tenho pela frente. Esse é um papel que cabe a nós, educadores”, refletiu.



2021