Em minhas reminiscências transitam recordações inigualáveis. Nos prelúdios da década de 1990, minha experiência inaugural no magistério, lembro-me dos primeiros discentes, a maioria deles migrantes, brasileiros que vieram a São Paulo, no afã de uma vida mais digna. Percebi muitas vezes que nossas aulas se transformavam em uma espécie de “divã” de autoajuda, em um modelo de socorro a vidas marcadas por sofrimento e descaso. Ali, a figura do professor se transformava na condição de ombro amigo, ou seja, “estou aqui para te ouvir”. Aprendi que muito mais do que ensinar os conteúdos essenciais a alguém, é fundamental saber ouvi-los, ser empático com as perplexidades e as angústias. Creio que, dessa experiência inicial, saí gigante.

Apesar de ter perdido contato com a maioria deles, meu anelo é que tenham sido vencedores no duro embate da vida. Outros, no entanto, eu acompanho pelas redes sociais e orgulhosamente posso vê-los prosperando em suas conquistas, fazendo-me sentir que, de alguma forma, fui uma pequena influência, deixando uma marca indelével em suas vidas.

Os anos são implacáveis, porém trazem o sabor de novos triunfos. Hoje me entusiasmo na honra de ser professor – mentor de centenas de outros colegas educadores em todas as unidades federativas deste imenso país. Percorrendo o território, encontrei brasileiros empolgados com a vocação de ser a diferença de muitos.

Por outro lado, o desafio é hercúleo, pois há muitos “Brasis” dentro desse vasto Brasil.

Em meio a tantas vivências, aflora em minha mente muitas passagens notáveis. Reservo um episódio, em especial, ocorrido na exuberante Baía de Todos-os-Santos, pontualmente na Ilha da Maré, quando tive o privilégio de conhecer um grupo de pequenos brasileiros infortunados pela pobreza e pela miséria, mas que tinham um desejo incomensurável pelo saber. Ali pude entender o valor de um mister com vontade de levar o que havia de melhor em termos educacionais e tecnológicos, pois existia uma ressonância identificada.

Molhado pra cima do joelho na minha estreia na Ilha da Maré.

Percorrer o Brasil e chegar até o setentrional Acre – acreditem, ele existe e é lindo –; tive neste lugar uma experiência inusitada, entre uma e outra formação de docentes, estava no hotel quando fui surpreendido por um abalo sísmico (sim, há tremores sentidos no Brasil, precisamente no município de Cruzeiro do Sul). Histórias não faltam, mas seriam necessárias muitas linhas para descrevê-las.

Nesta data em que comemoramos o Dia do Professor, singelamente encorajo o docente a encarar sua profissão como a missão mais alta que se pode confiar ao indivíduo, isto é, formar e educar cidadãos. É uma atribuição que responde aos nobres anseios religiosos, patrióticos e humanos.

Gosto da afirmação de Dostoievski, o notável romancista russo, quando menciona que o ideal do professor deve ser tornar o seu discípulo melhor, mas para isto ele precisa ensinar muito mais pelo exemplo do que por preceito.

Nossos desafios são vastos, pois precisamos nos preparar para um mundo em constante transformação; logo, precisamos não apenas estarmos capacitados para dar informações, mas também para ter a habilidade de encontrar, selecionar e analisar conhecimento em consonância com nossos alunos.

Citando meu saudoso professor Pedro Apolinário: “E por mais cabelos brancos que se amontoem, por mais rugas que surjam no rosto, enquanto houver no coração calor e ideal, não envelheceremos; envelhecem os derrotistas, envelhecem os pessimistas, envelhecem os semeadores de desilusões e o professor não pode desiludir-se... Os que deverão ser mestres aprendam pelo amor à pátria, pelo amor a Deus”.

Professores, vida longa, salvemos o Brasil!

Ubirajara Santos Moreira, professor e consultor pedagógico do Educacional – Ecossistema de Tecnologia e Inovação.