Com o início de 2022, muito tem se discutido sobre o retorno das aulas presenciais, ainda que grande parte das instituições de ensino brasileiras já seguem o modelo híbrido ou presencial de aulas desde o ano passado. A diferença é que em muitos lugares do território nacional, o ensino presencial torna-se obrigatório. Mas, uma das principais preocupações nesse momento é pensar em medidas para trazer de volta para a escola os alunos que abandonaram os estudos, até porque nós somos um dos países que ficaram por mais tempo com as escolas fechadas: uma média de 50 semanas.

A evasão escolar atingiu cinco milhões de estudantes no Brasil, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em pesquisa realizada no final de 2020. A evasão que já era preocupante, aumentou 5% entre os alunos do ensino fundamental e 10% no ensino médio neste período, de acordo com dados fornecidos pela Agência Câmara de Notícias.  

No segundo semestre de 2021, um levantamento realizado pelo Todos Pela Educação a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), mostrou que cerca de 244 mil crianças e adolescentes entre 6 e 14 anos estavam fora da escola. Essa realidade representa aumento de 171% em relação a 2019, quando o número era de 90 mil crianças desta faixa etária estavam longe das salas de aula.

Mas, mesmo para aqueles que conseguiram continuar matriculados, a dificuldade esteve presente no acesso à internet, com quatro milhões de estudantes sem conectividade diária. O número do abandono por parte de estudantes do Ensino Médio foi aumentando gradualmente, pois, além de todos os problemas com a conexão à internet, muitos deles deixaram de estudar para trabalhar, visto que 45% dos jovens brasileiros estão em famílias que perderam parcialmente ou totalmente sua renda nos últimos dois anos.

Com o ano letivo prestes a começar, em um contexto em que a pandemia ainda é a realidade, secretarias e escolas terão que desempenhar esforços para atrair alunos. Neste momento, pensar e executar estratégias de busca ativa escolar será fundamental. Por isso, com o objetivo de criar uma força tarefa entre o governo e a sociedade civil para garantir a matrícula de todos que estejam em idade escolar, a subcomissão criada para acompanhar a educação na pandemia, apresentou um projeto de lei no Senado que declara 2022 como o “Ano da Busca Ativa: Toda Criança na Escola”.  

A ideia surgiu durante debates com especialistas nas oito audiências promovidas pela comissão, em que apontaram que a pobreza agravada pela pandemia levou parte dos estudantes ao trabalho informal. E com o retorno das aulas presenciais, muitos acabam priorizando o emprego. Mas como fazer essa busca ativa na prática?

Sugestões para planejar a busca ativa

O fenômeno da evasão escolar é multifacetado e exige a articulação de diferentes áreas, com agentes do poder público, sistema municipal e sistema estadual, área da assistência social e conselhos de proteção atuando de forma intersetorial, combinada e sistêmica. Não existe uma receita pronta, tampouco é uma tarefa fácil, mas algumas ações podem ajudar.

O primeiro passo é encontrar esses estudantes. Com a crise econômica, muitas famílias brasileiras precisaram se mudar ou, pior, perderam suas moradias. Segundo um levantamento realizado pela campanha Despejo Zero, divulgado pelo Jornal Nacional, houve um crescimento de 340% no número de famílias despejadas de suas moradias entre agosto de 2020 e agosto de 2021.

Localizando esses estudantes, é preciso ativar uma rede de proteção social para garantir que essas crianças e jovens tenham restabelecidas condições físicas, emocionais e sociais.

Um ponto importante é que, mesmo entre aqueles que conseguiram escapar de situações sociais e econômicas mais críticas, será necessário lidar com impactos de saúde física e emocional para refazer os vínculos entre a instituição de ensino, educadores e alunos. Uma estratégia interessante para alcançar o sucesso dessa etapa é promover o acolhimento dos alunos e realizar um trabalho voltado para o desenvolvimento de competências socioemocionais.

Além disso, tem as ações de recuperação das aprendizagens em um cenário de desmotivação em voltar e permanecer na escola.

Realizar pesquisas periódicas com famílias e estudantes: esse diálogo permite identificar quais são as dificuldades que causam a falta de participação e mapear possíveis casos que têm risco de evasão. Esse acompanhamento é tão importante dentro da escola quanto o monitoramento feito dentro das secretarias de Educação.  

Além disso, todas as informações devem estar devidamente registradas para, por meio de análise das evidências, conseguirem encontrar formas de solucionar os problemas encontrados. A sistematização e atualização desses dados contribui para facilitar o planejamento de ações futuras.  

Embora essas medidas sejam bastante efetivas no combate a evasão, é fundamental que a gestão administrativa tenha respaldo técnico das ações em todas as esferas para dar segurança e efetividade na atuação. Pensando nisso, a Unicef desenvolveu a plataforma Busca Ativa Escolar feita em parceria com Undime, com o apoio do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), para apoiar estados e municípios. A iniciativa busca garantir o acesso e a permanência dos alunos nas instituições ao permitir a identificação, registro, controle e acompanhamento daqueles em situação de abandono escolar. Para saber mais sobre esse projeto e inscrever a sua rede de ensino você pode acessar clicando aqui.