DéboraGarofalo e Ana Gabriela Simões Borges conversaram com a Tecnologia Educacionale traçaram um raio-x do sistema educacional do país

Valorizaçãoda carreira, formação de base e continuada dos docentes, infraestrutura,desigualdades sociais. Muitos são os fatores que refletem nos indicadores daeducação no Brasil. Para compreender um pouco melhor esse cenário, a Tecnologia Educacional recebeu a mestrando emeducação e finalista no Global Teacher Prize, oNobel da educação, Débora Garofalo, e a superintendente doInstituto GRPCOM, doutoranda educação, tecnologias e formação deprofessores, Ana Gabriela Simões, para uma conversa exclusiva sobreo tema no Dia da Educação.

Paraconstruir uma base cada vez mais sólida é preciso colocar a lente sobre osdados alarmantes apresentados pelo país e propor soluções para osprincipais dilemas que vive a educação.  “Primeiro é preciso classificar esse cenário que vivemosem dois: o externo e o interno. Se externamente o país tem fortes problemassocioeconômicos ligados principalmente a desigualdade que acarretam na falta deoportunidade de aprendizagem, de acesso ao ambiente escolar e que está sendoagravada nesse momento de pandemia, internamente as dificuldades dizem respeitoa infraestrutura do sistema educacional como um todo: programas, repasses deverba, falta de professores nas unidades escolares, de saneamento básico, quadrasesportivas, salas de leitura, mas principalmente de acesso à inovação”, destacaGarofalo.

 

“Soma-se a isso afalta de prestígio da carreira docente: em média, no Brasil, um profissional daeducação que trabalha 40 horas semanais tem um salário de R$ 2 mil reais”

Débora Garofalo,mestranda em educação

 

LEIA TAMBÉM UM PANORAMA DA EDUCAÇÃO NOBRASIL PANDÊMICO

 

Déboradestaca que é preciso voltar um pouco no tempo para fazer uma análiseestrutural. “Nós não vamos bem Matemática e nem proficiência da LínguaPortuguesa. O Brasil é um dos últimos países nas avaliações e estamos muitoaquém do que deveríamos estar. E isso diz muito sobre o  que realmente vemtransmitindo esse ensino ao longo dos anos”.

 

QUAIS OS PROBLEMAS QUE O BRASILPRECISARÁ ENFRENTAR NA EDUCAÇÃO?

Senos últimos 30 anos o país vinha avançando, mesmo que lentamente nessa área,agora ele provavelmente irá retroceder. Para exemplificar esse cenário, Anatraz alguns dados para serem analisados:

  • Apenas     33% dos domicílios brasileiros tem um computador com internet.

 

“Ouseja, o que está acontecendo com todo o restante que não tem essa condição? Emesmo os que têm não significa que eles tenham uma internet de boa qualidade,que tenham mais de um computador que muitas vezes precisa ser dividido entre afamília. Os problemas que podem acarretar são vários como a distorção da idadex série, a evasão escolar e muitos outros”, observa Ana.

  • Dos     estudantes que concluem o Ensino Médio, apenas 9% têm o aprendizado     considerado mínimo.

 

“Asituação fica ainda pior quando fatíamos esses 9%. Dos 25% mais pobres, só 3%têm o índice adequado, enquanto entre os 25% mais ricos, 65% têm o índiceadequado. É uma discrepância muito grande e esse momento pode piorá-la aindamais”, alerta.

Déboraacrescenta que as questões das desigualdades sociais resultamprincipalmente na evasão escolar, especialmente no Ensino Médio, onde osjovens acabam deixando as escolas porque precisam ajudar a completar a rendadas famílias.

 

PESQUISA PROJETA DÉFICIT QUE O ISOLAMENTO SOCIAL PODE TER CAUSADO

 

“Apouca ou nenhuma escolarização dos responsáveis traz consequências para oprocesso educacional, principalmente por conta da valorização da educação.Muitos dos pais até prezam pela educação, mas diante dessa realidade, aindaacreditam que o trabalho vem em primeiro lugar, que é mais importante trabalhardo que estar na escola”, destaca.

Outroponto de atenção trazido por Débora são as condições das crianças na zonarural, tanto pelo acesso à internet quanto ao trabalho.“Apesar dos dados demonstrarem uma redução do trabalho infantil, a práticaacontece de uma maneira diferente já que por ser informal é difícil computaresses dados”, completa.

 

“Não tenho dúvidasque o Brasil enfrenta, neste momento, uma dificuldade de promover um ensinoremoto que vai trazer sérias consequências para a educação do país.”

Débora Garofalo,mestranda em educação

 

Todasessas informações deixam nítido os problemas que precisam (e precisarão) serenfrentados pelo sistema educacional. “Os prejuízos de ficar forada escola e de não ter acesso ao ensino remoto, híbrido ou presencial, além dosdanos sociais e emocionais, deve trazer um aumento nos índices de analfabetismo,das desigualdades por diferentes condições de acesso à educação, evasão escolare um apagão da mão de obra”, avisa Ana.

 

CARREIRA DOCENTE E FORMAÇÃO

“Pormuito tempo essa carreira foi considerada um fator de prestígio, mas a inversãodos homens nessa profissão e a desqualificação dessa profissão muito arreigadaao fato da mulher poder ensinar, iniciou a desvalorização da profissão. Com opassar do tempo esse cenário foi se agravando cada vez mais. Somos formados,preparados… muitos profissionais da educação que estão em sala de aula possuemmestrado, doutorado, coisa que muito político não tem e mesmo assim a gente vêuma desvalorização”, conta Débora.

Portanto, adesvalorização do trabalho do professor é o primeiro ponto apresentado pelasespecialistas durante a conversa. Para corrigir essas lacunas, Débora acreditaque é necessária uma reforma na carreira do professor a nível nacional parahaver uma fomentação da docência.

Osegundo alerta vai para reformas iniciais na formação dos docentes dentro dasfaculdades que, de acordo com Ana, também precisam ser feitas. “Muitos não sesentem preparados para enfrentar a sala de aula e percebemos isso diante do desejodesses profissionais abandonarem a sala de aula. É preciso dar aos acadêmicosacesso a diversos fatores que futuramente eu virão a trabalhar”, enfatiza.

 

“Países que tiveramêxito na educação só o tiveram porque investiram na valorização da carreiradocente.”

Débora Garofalo,mestranda em educação

 

A formação continuada também é uma necessidadelatente.Para entender melhor essa carência a pesquisa sobre Tecnologias de Informação eComunicação (TIC) Educação 2019, apontou que apenas 33% dos professoresque lecionam em escolas urbanas participaram de algum curso de formaçãocontinuada sobre computador e internet. “Isso mostra que o professor vaisendo atropelado e a agora ainda foi lançado para as telas. Existe uma falhaque a gente sempre previu, mas não via acontecer e agora ela está aí: aeducação vai ser cada vez mais tecnológica”, atenta.

Somado a essas dificuldades, estima-se que 12,5% dos professores sofrem agressão verbal ou intimidação em sala de aula que também contribuem para as questões ocorridas no processo educacional.

“O primeiro ponto que não podemos esquecer é que o professor é o protagonista no processo de aprendizagem e nessa pandemia isso ficou muito claro. Uma pesquisa recente no estado de São Paulo, mostrou a importância do processo de aprendizado ocorrido, principalmente, dentro da sala de aula dentro do formato presencial, já o afastamento dos alunos provocou uma regressão de pelo menos duas casas no desenvolvimento desses estudantes. Isso comprova a importância do professor em sala de aula”, lembra Débora.

“Acredito que depois da pandemia, vivenciando tudo que estamos vivenciando, que a gente tenha uma grande reviravolta na carreira do professor.”

Ana Gabriela, doutoranda em educação

“Vale destacar que não é só sobre preparar o professor para a tecnologia. Os estudantes estão super expostos a internet e aos perigos dela, a gente precisa fazer uma reflexão até pelo tempo de exposição dos alunos às telas. Nosso dever é prepará-los para se protegerem, para ter uma reflexão maior sobre os conteúdos que eles vão consumir naquele universo de possibilidades. É necessário ensinar os alunos sobre alfabetização midiática e  curadoria de notícias e informações, essa é uma necessidade que a escola precisa acompanhar”, reforça Ana.

INFRAESTRUTURA DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO

Débora e Ana concordam sobre a necessidade urgente da valorização da carreira docente e sobre os aspectos da formação, mas reforçam que sem a infraestrutura necessária é pouco provável que essas mudanças aconteçam.

“Ainda temos muitas escolas sem a infraestrutura mínima necessária. E não estou falando nem de computador, isso é um sonho perto de realidades de instituições de ensino que não tem  biblioteca, quadra, banheiro. Sim, acredite, tem escola que não tem banheiro”, lamenta Ana.

Ela reforça portanto que não basta dar toda formação do mundo aos professores se não forem dadas as condições para colocá-la em prática. “Tem professor que precisa levar o seu próprio celular e deixar passando de mão em mão para a turma inteira visualizar o que ele quer explicar. Ou levar o seu notebook, conectar na internet do seu celular para projetar para a sala”, constata.

“Conectividade não é artigo de luxo, ela é necessária tanto para professores quanto para estudantes.”

Ana Gabriela, doutoranda em educação

TECNOLOGIA E PERSONALIZAÇÃO PARA GARANTIR A EQUIDADE NA EDUCAÇÃO

“É fundamental que a gente olhe para traz e não cometa os mesmo erros, como, por exemplo, os cortes que temos visto na educação.É justamente o contrário, esse é o momento de investir enquanto país na educação”, disse Débora.

QUAL CAMINHO A EDUCAÇÃO DEVE SEGUIR?

“Estamos em um momento de rever metodologias, estratégias, de experimentar coisas novas, de refletir sobre ensinar aquilo que realmente importa, ensinar com mais significado, ensinar aquilo que faça diferença para a vida”, incentiva Ana.

Ela chama atenção para o ensino híbrido e como ele vem sendo trabalhado. “Não é apenas sobre estudar um pouco em casa, um pouco na escola. Não é só mesclar, é misturar. Vem de  blended que significa mistura: misturar games, misturar estratégias, misturar novos métodos como a própria gamificação que é muito legal, especialmente para a Matemática.”

MODELOS DE AULAS HÍBRIDAS É A APOSTA PARA A RETOMADA DAS ATIVIDADES ESCOLARES

A doutoranda em educação destaca que hoje as regras rígidas, os currículos engessados, conteudistas, a burocracia, vão tirar do professor a liberdade e as possibilidades de inovar. “Entretanto, é preciso que a gente se adapte às novas linguagens e digo isso não só pela escola, mas para a vida. Quer um exemplo? Você já tentou fazer alguma coisa num banco? O atendente, mesmo com você na frente dele, vai mandar você fazer tudo pelo aplicativo. Ou seja, não tem mais como fugir”, acrescenta.

“Quando se pede a um professor para mudar o seu método, não se pede apenas que ele mude de técnica, pede-se para que ele próprio mude.”

François Dubet, filósofo e sociólogo

Ana comenta das dificuldades que é promover essa mudança. “É preciso assumir que não somos mais os únicos detentores do conhecimento, que ele está totalmente fora dos muros da escola. Que o aluno ‘dá um google’ e recebe um milhão de informações para uma pergunta. Entretanto, é preciso que esse estudante saiba fazer uma boa curadoria diante de tantas possibilidades”.

TENDÊNCIAS EDUCACIONAIS QUE SE CONSOLIDARAM

Para ela, o caminho da educação deve girar em torno de uma educação que faça mais sentido para a vida do aluno. “Se a gente pode buscar conhecimento em todos os lugares, a necessidade é trazer essa autonomia para o estudante para que ele possa fazer melhores buscas, as melhores escolhas e saiba lidar com esse fluxo de informações que é assustador. Precisamos de um bom diagnóstico educacional para se adaptar às novas linguagens, nos aproximando e nos tornando mais inclusivos”.

“Estamos arcaicos. Dizem se uma pessoa dormisse um século e acordasse 100 anos depois a única coisa que não teria mudado, que estaria igualzinha, é a sala de aula.”

Ana Gabriela, doutoranda em educação

Débora complementa dizendo que é preciso buscar uma educação mais integral, pautada em valores integrais onde se possa considerar o estudante de maneira individual, respeitando o seu processo de aprendizagem e tratá-lo de uma forma diferenciada, trazendo equidade, mas principalmente qualidade para dentro das nossas escolas.

PERSONALIZAÇÃO DO ENSINO PARA UMA EDUCAÇÃO IGUALITÁRIA

“Se antes o professor era aquele que apenas transmitia o conhecimento sem a preocupação de envolver os alunos, hoje podemos nos apropriar de vertentes muito ricas para se fazer esse tipo de trabalho como: cultura maker, programação e robótica, que comprovadamente auxiliam nesta aprendizagem que traz significado. E mais que isso: fazem os estudantes criarem, exercitam o raciocínio lógico e permitem que eles vejam como as coisas funcionam de maneira prática”, incentiva.

“A Educação 4.0 advinda desses novos tempos com a Revolução Industrial abriu possibilidades para que a gente trabalhasse de maneira diferenciada e principalmente na essência da Língua Portuguesa e da Matemática, elas precisam ser trabalhadas de maneira concreta, que conversem e dialoguem com a realidade dos estudantes.”

Débora Garofalo, mestranda em educação

EDUCAÇÃO 4.0: MAIS QUE UM CONCEITO A PRÓPRIA REALIDADE

“Meu sonho um dia é ler no jornal que o Brasil eliminou o analfabetismo, que Brasil tem as taxas de avaliações mais altas do mundo. É isso que queremos ver! Temos professores comprometidos, pessoas que querem fazer a diferença na educação, pessoas que fazem a diferença”, finaliza Ana.