Volta às aulas: os desafios da educação no próximo ano letivo

Por:
Educacional
|
31/1/2022
Tempo de leitura:
5 min
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Acolhimento, recuperação do currículo, déficit de aprendizagem, evasão escolar, participação da família e tecnologias educacionais estão entre os pontos de atenção das escolas em todo o país no retorno das aulas presenciais

O início de um novo ano escolar é sempre cercado de desafios. Conhecer os estudantes, entender suas realidades, suas dificuldades e facilidades, como aprendem, interagem...são muitos os pontos de atenção dos educadores para garantir que nenhum aluno ficará para trás ao longo do percurso.

A especialista em educação integral e analista de projetos educacionais, Cilvia Moraes Ribeiro dos Santos, destacou alguns dos desafios que tradicionalmente precisam ser superados pelos professores:

  • Cronograma apertado para dar conta do conteúdo e sanar as lacunas de aprendizagem de todos os alunos.  
  • Pouco tempo disponível para atividades de integração dos estudantes, especialmente os que vêm de outras instituições e têm hábitos de estudo diversos.
  • Pouco tempo para produção de material/conteúdo.
  • Dificuldade em envolver a família no processo ensino-aprendizagem.  

Entretanto, para além dos desafios já conhecidos pelos profissionais da educação, somam-se a eles novos obstáculos que precisarão ser superados devido aos últimos anos com a interrupção da rotina presencial escolar por conta da pandemia de covid-19.

“Algumas crianças em idade escolar nunca sequer foram para a escola. Os alunos que já frequentavam tiveram sua rotina interrompida abruptamente. Muitos perderam familiares, viveram o impacto financeiro com a perda de renda dos pais, deixaram de conviver com amigos e nem sempre puderam ter o suporte que precisavam para aprender em casa”, alerta a especialista.

Cilvia destaca que há muito mais disparidade no aprendizado, já que muitos alunos que não tiveram acesso ao conteúdo. “Essa diversidade exige que os professores tenham mais materiais, os planos de aula devem prever mais situações. Além do plano B é preciso um plano C, sempre tendo em vista que será preciso retomar muitas das aulas. O tempo afastado da escola deixou os alunos com a sensação de que a rotina é dispensável. Em se tratando de estudos, ela é fundamental, agora, mais do que em qualquer tempo”, completa.

A parceria com a família passa a ser ainda mais fundamental porque, de acordo com a especialista, a ruptura ocasionada pela pandemia vai surtir efeito por muitos anos letivos. “Somado a tudo isso, existe a falta de maturidade no uso das tecnologias. Elas têm sido a tábua de salvação nos últimos anos e, a partir de agora, farão parte das salas de aula. A escola terá que encontrar um equilíbrio para o uso saudável do celular, por exemplo, durante as aulas presenciais”, acrescenta.

DÉFICIT DE APRENDIZAGEM DEVE SER O PONTO MAIS PREOCUPANTE NA VOLTA ÀS AULAS

“Dentro de uma turma existem muitas realidades. Cada aluno é um, o contexto social varia, a estrutura familiar, o acesso aos materiais e à informação são distintos. Essa retomada tem que ter foco na proficiência dos alunos, buscando sempre a equidade”, ressalta Cilvia.

ESCOLAS PÚBLICAS E PRIVADAS: OS DESAFIOS COMUNS E DISTINTOS

As diferenças entre o ensino público e privado são conhecidas, mas ambos sistemas possuem desafios. Se por um lado a escola pública encontra dificuldades na infraestrutura, nos materiais disponíveis; nas turmas com lotação máxima de alunos, o que dificulta o trabalho pedagógico, por outro a escola particular, em alguns casos, possui um sistema rígido, não flexível, o que limita a criatividade e inventividade do educador.

“Porém, nos dois cenários há um desafio conhecido que cresceu assustadoramente nos últimos dois anos: a evasão escolar. Tanto as escolas públicas quanto particulares sofreram com a evasão, principalmente pelo afastamento em função da pandemia; agora esse é um desafio comum a todas as escolas e regiões do país”, explica.

“Conheço ótimos professores, que fazem trabalhos excelentes. Ainda tenho esperança que os educadores em geral voltem a ocupar espaço de destaque com o reconhecimento devido. Mas ainda precisa maior valorização profissional, condições para formação contínua e escolas públicas bem equipadas - com materiais de qualidade e tecnologias de ponta - para que os alunos tenham acesso precoce às inovações disponíveis.”

Cilvia Moraes Ribeiro dos Santos, especialista em educação integral e analista de projetos educacionais

ETAPAS DE ENSINO DIFERENTES, DESAFIOS DIFERENTES

Não bastasse os desafios já mencionados até aqui, há que se pensar em cada um dos obstáculos para cada etapa do ensino.  

Cilvia explica que na Educação Infantil e no Ensino Fundamental o ponto mais crítico é a formação do professor. “Essa é uma discussão antiga. Tenho a impressão que os cursos de Licenciatura estão sempre um passo atrás em relação à realidade escolar. O profissional recém-formado tem grandes dificuldades quando se depara com a sala de aula, pois não tem o preparo adequado para avaliar as diferentes metodologias, além disso, o tempo é sempre curto; quando se têm muitos alunos com defasagens, e não há tempo hábil para recuperar esse déficit, isso vai se acumulando e o resultado é catastrófico para o aprendizado”.

Para a última etapa da Educação Básica a reformulação com a criação do Novo Ensino Médio foi o maior desafio, pois, segundo a especialista, trouxe muita insegurança para os gestores da educação no país, principalmente na implantação dos itinerários formativos.  

“É importante lembrar que mudanças sempre têm esse efeito, foi assim com a BNCC, que hoje está totalmente assimilada pelos sistemas de ensino. Outro fato é que os jovens chegam ao colégio, no primeiro ano, já pensando na faculdade. O novo modelo tem como objetivo dar mais enfoque para a área de interesse dos educandos. Nesse caso, o desafio é manter essa motivação sem pular etapas pois, a melhor estratégia para se chegar ao Ensino Superior é apreender todo o conhecimento dos níveis anteriores”, acrescenta.

AS TENDÊNCIAS EDUCACIONAIS QUE TODA ESCOLA PRECISA ESTAR DE OLHO

Cilvia conta que muitas das chamadas tendências educacionais são assuntos que estão na pauta há anos, entretanto, o momento pede mais celeridade para incluí-las nas prioridades das instituições de ensino. A especialista separou as principais delas:

  • Processo de ensino-aprendizagem personalizado e humanizado, levando em conta que cada aluno é único e aprende à sua maneira.
  • Tecnologia é fator indispensável na educação da atualidade.
  • O modelo de aulas híbridas veio para ficar, portanto há que se criar uma cultura de equilíbrio da tecnologia com o contato humano.
  • O fator socioemocional ocupa espaço de destaque na educação: a falta de interação social e a vivência da pandemia, além de deixar lacunas no desenvolvimento socioemocional dos estudantes, apresentou o luto de forma muito ampla - na família, nos amigos, na mídia - todos estão fragilizados e o acolhimento é fundamental.
  • Os alunos são, de fato, protagonistas da aprendizagem, e os professores estão aprendendo a aprender com eles.

Apesar das dificuldades que precisam ser enfrentadas neste ano letivo, Cilvia é otimista. “Eu desejo que os alunos consigam construir sentido a partir daquilo que lhes é oferecido nas salas de aula. Que os professores tenham condições de retomar sua rotina, que as ações educacionais sejam coerentes e motivadoras, de acordo com a realidade de cada escola. Que ao final do ano, os professores se reúnam e digam, meus alunos são bons, venceram 2022 com méritos!”, finaliza Cilvia.

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